Evento promovido pelo Sescoop/AL reuniu cooperativas de catadores para discutir oportunidades de mercado
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Com palestrantes de destaque nacional, foram abordados temas como mercado de carbono, inclusão social e geração de renda.

Na última sexta-feira (15), o Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo no Estado de Alagoas (Sescoop/AL) realizou o “IMPULSIONA COOP: Negócios Sustentáveis e o Futuro da Reciclagem”, um evento que reuniu representantes de cooperativistas de catadores das regiões metropolitana, agreste e norte de Alagoas, além de especialistas no tema, reconhecidos nacionalmente.
Foram discutidos assuntos sobre gestão, mercado de carbono, geração de renda, cultura cooperativista e oportunidades ligadas à economia circular com foco no segmento reciclagem.
De acordo com dados do Anuário da Reciclagem, maior repositório digital de informações sobre catadores e catadoras no Brasil, em 2024 foram mapeadas mais de 3 mil organizações de catadores, registrando mais de 70 mil catadores atuantes em diversas partes do país. Destes, 45 organizações são alagoanas com cerca de 1050 catadores e catadoras atuantes no estado. Só em 2024, segundo o anuário da reciclagem, foram gerados mais de R$9,8 milhões no território alagoano no ramo. Mas, muito ainda precisa ser feito para reconhecer a profissão de catadores com mais valorização.
Ivanilda Gomes é cooperada da Cooperativa dos Catadores da Vila Emater (Coopvila), uma organização que surgiu a partir do fechamento do antigo “lixão” de Maceió. Ela acredita que o único caminho para que os catadores lutem contra a invisibilidade social que ainda existe na atividade é a organização dos grupos em associações ou cooperativas.
“Catador e catadora que trabalha na rua ou em lixões, trabalha de forma desumana. Trabalhar de forma organizada, me trouxe a valorização humana, me trouxe o reconhecimento da sociedade, me trouxe a ocupação de espaços, principalmente, na luta por políticas públicas. O fechamento do lixão foi uma dor para muitos que se viram perdidos, mas também foi uma chance de mudar de vida porque nos fez enxergar que o cooperativismo no segmento da reciclagem nos daria novas oportunidades”, destacou Ivanilda, mais conhecida como Vânia.
Atualmente, Vânia é a representante estadual do Movimento Nacional dos Catadores, mas na época do fechamento, ela se viu com poucas possibilidades. “Hoje, nós somos profissionais da reciclagem, reconhecidos Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) reconhecida pela sociedade brasileira. O cooperativismo me deu a vida novamente, então, eu renasci. Voltei a estudar e fui me capacitando. Trabalhar de forma organizada significa inclusão e isso é o que queremos”, complementou.
Caso de Sucesso
Durante o evento, foi possível conhecer também um pouco da história da associação e cooperativa Recicle a Vida, que atua com catadores em Cinelândia, no Distrito Federal (DF).
A palestrante, Mônica Licassali, é a principal gestora da cooperativa e durante o ImpulsionaCoop mostrou o porquê que a instituição é uma referência nacional em coleta seletiva, triagem e inclusão social de catadores.
Mônica trabalhava na área de Recursos Humanos da empresa que financiava investimentos na cooperativa, coordenando as ações sociais com os catadores. Mas, foi quando a empresa faliu que optou em ficar e reorganizar a cooperativa com um olhar empresarial, mesmo tendo chances de investir na sua carreira fora da cooperativa.
“Pensei se as empresas dão lucro porque a gente não conseguiria fazer a cooperativa gerar renda e uma vida melhor para os catadores. Trabalhei com foco na gestão, captação de recursos e formação dos catadores. Então trazer este exemplo, é provocar e abrir possibilidade para que isso também aconteça com as cooperativas alagoanas. As cooperativas de reciclagem atuavam em lixões sem despesas, sem ter que fazer alguns cálculos. Hoje eles atuam tendo que captar mais cooperados. O modelo de negócio é outro e é necessário ter esse olhar”, explicou a palestrante.
A Recicle a Vida conta com uma estrutura operacional completa com esteiras, prensas horizontais e verticais, empilhadeiras, extrusora, caminhões, linha de lavagem e moagem dos materiais. São mais de 70 cooperados e dezenas de colaboradores que fazem tudo funcionar.
Para Renata Malta, diretora da Mobilize, assessoria e consultoria especializada em negócios com impacto socioambiental, o Impulsiona Coop superou todas as expectativas. "Este foi um marco para que estas cooperativas pudessem entender melhor os serviços do Sescoop, para que elas compreendam o que é de fato ser uma cooperativa, para que elas visualizassem de forma mais prática o impacto dos princípios do cooperativismo no seu modelo de negócio e as oportunidades. Foi importante o Sescoop trazer estes temas atuais no que se refere à economia circular e tantos outros. Eu, como assessoria, com toda a equipe da Mobilize aprendemos muito e nos colocamos à disposição a todos os envolvidos", destacou Renata.
Oportunidades com crédito de carbono
Outro assunto importante e atual tratado no Impulsiona Coop foi o crédito de carbono e a relação com a reciclagem. De acordo com o palestrante Luciano Loubet, presidente da Associação Brasileira dos Membros do Ministério Público de Meio Ambiente (ABRAMPMA), a discussão sobre crédito de carbono na reciclagem começa a ganhar uma conexão interessante com o poder público quando o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) recomendou que os tribunais contratem cooperativas para gestão de resíduos, ao mesmo tempo, que já existe uma resolução determinando que o Poder Judiciário realize seus inventários de carbono e avance na compensação de emissões.
Para Loubet, se os tribunais precisarão compensar carbono, fortalecer projetos de crédito de carbono ligados às cooperativas de reciclagem pode ser um bom caminho.
“Ainda há muito avanço regulatório pela frente, mas essa pode ser uma grande oportunidade para conectar reciclagem, remuneração ambiental e fortalecimento das cooperativas. Com esse cenário de oportunidades que surge a cada dia, registrar-se no sistema OCB e ter o apoio do Sescoop para organizar as cooperativas é de grande relevância porque traz para elas, a capacitação, a articulação, a inclusão nesse mercado e coloca as cooperativas locais de igual patamar com outros sistemas de cooperativas. É preciso estar atento ao mercado”, esclareceu Loubet.
Um crédito de carbono é um certificado digital que representa a não emissão ou remoção de 1 tonelada de dióxido de carbono equivalente da atmosfera. Funciona como uma "moeda" climática, permitindo que quem polui menos possa vender esse excedente para quem precisa compensar suas emissões de gases de efeito estufa (GEE).
“Precisamos começar a rentabilizar corretamente este trabalho. Precisamos enxergar a oportunidade real e fortalecer o sistema do cooperativismo para a área da reciclagem,’ completou.
Para o superintendente do Sescoop/AL, Adalberon Sá Júnior, o evento reafirmou o papel do cooperativismo como modelo econômico viável e transformador.
“Quando falamos de reciclagem, falamos também de inclusão social, geração de trabalho e renda e cuidado com o meio ambiente. O cooperativismo une esses conceitos e oferece às cooperativas condições reais de crescer de forma estruturada e sustentável. A ideia foi chamar atenção para a importância de estar pronto, com as condições necessárias, para diante das oportunidades de políticas públicas e iniciativas privadas, tenhamos o ambiente favorável para o protagonismo das cooperativas de catadores”, explicou Adalberon.
O evento que aconteceu durante todo o dia, trouxe palestras, painéis, depoimentos e muita integração reconhecendo as cooperativas como agentes estratégicos da sustentabilidade, da inclusão social e da geração de renda.
“Nosso papel enquanto Sistema OCB é de articular políticas públicas que oportunizem as cooperativas. A gente precisa estar replicando estas práticas positivas para outros municípios, inclusive, para fortalecer este segmento. A cooperativa que de fato existe, que está regular no sistema, tem todo o apoio da OCB para ir em busca, em nível local e nacional políticas que fortalecem o setor”, finalizou Dyego Correia, presidente da OCB/AL.
Por Isis Correia - Ascom Sescoop/AL